sábado, 3 de maio de 2008

Você

Quero uma paixão livre
Escrita a lápis numa folha branca
Com aquela letra bem jogada.
Um tipo fresco que nem a bossa nova
Forte como a tropicália
Tão charmosa quanto o samba

Andar à beira mar sob a garoa
Mergulhar na água gelada
Bater queixo
Esfregar os braços
Dar pulinhos
Gritar: - Que frio!
E mergulhar de novo
Puxando você
Mesmo de cinto e sapato.

Caminhar descalço no asfalto, admirar os carros invejosos.
Dançar uma música que toca somente em nossas cabeças
Enquanto esperamos o sinal ficar verde para nós.

Cair de costas na grama
E gargalhar com as mãos sobre a barriga.

Apertar os olhos
Pra te ver duplicado
Fora de foco
(nova maneira de te admirar).

Correr em círculos ao teu redor
Só pra ver tua expressão
Tonta
E te observar sob mil ângulos
Mil prismas e mil vezes mil cores.

Gritar bem alto
E reconhecer no eco a tua voz:
Resposta distante,
Longe,
Longe,
Longe,
Longe...

[ carniça de Dandara e Jean]

Passagens



[Todos os trechos são retirados do livro Budapeste, de Chico Buarquede Holanda editado pela Conpanhia das Letras: SP, 2003.]

Coisas que pensamos e sentimos






"Não se tratava de orgulho ou soberba, sentimentos naturalmente silênciosos, mas de vaidade mesmo, com desejo de jactância e exibicionismo, o que muito valorizava minha discrição" [Pp. 18]





"... minha mão seria sempre a minha mão, quem escrevia por outros eram como luvas minhas, da mesma forma que o ator se transveste em mil personagens, para poder ser mil vezes ele mesmo" [Pp. 23]





"Eu sempre me vingava de gostar de Vanda" [Pp. 34]





"Moças entravam e saíam da minha vida, e meu livro se dispersava por aí, cada capítulo a voar para um lado. Foi quando apareceu aquela que se deitou em minha cama e me ensinou a escrever de trás para diante. Zelosa dos meus escritos, só ela os sabia ler, mirando-se no espelho, e de noite apagava o que de dia fora escrito, para que eu jamais cessasse de escrever meu livro nela" [Pp. 40]





"... as letras saíram pálidas, parecia que ali se esgotava minha própria tinta. [...] ...julguei escutar um ruído de olhos a me seguir." [Pp. 41]





"Saíram andando na minha frente, ela igual a uma criança pendurada no braço dele, e senti ternura vendo aquela cena, me lembrava um filme que esqueci." [Pp. 50]





"Mas duas pessoas não se equilibram muito tempo lado a lado, cada qual com seu silêncio; um dos silêncios acaba sugando o outro..." [Pp. 61]





"... deixei cair o rosto, os ombros, os braços, e ela se lançou sobre mim, se grudou em mim e me fincou os dedos, como se pretendesse enterrá-los nas minhas costas, porque eu era um homem cruel, ou formidável, ou pavoroso, porque eu estava dissipando os instantes mais preciosos da sua vida." [ Pp. 73]





"Com um mínimo de pudor, mais um tanto de ódio preservado, nossa amizade se consolidou; à diferença do amor, que extravasa a toda hora, a amizade precisa ter seus diques. Assim, por exemplo, o Álvaro nunca procurou saber o que meu pai fazia da vida, ou que fim levaria minha mãe, como eu também jamais lhe perguntei por que diabos ele usava tanta daquela água-de-colônia." [Pp. 90-91]





"É que comigo as pessoas sempre puxam assunto, julgando conhecer de algum lugar este meu rosto corriqueiro, tão impessoal quanto o nome José Costa; numa lista telefônica com fotos, haveria mais rostos iguais ao meu que assinantes Costa José." [Pp. 102]





"... naqule instante me portei como um amador. Devo ter enrubescido, mordi meu lábio inferior, meus olhos se encheram de água, tive pena e orgulho de mim, era como se duas palavras dela reparassem sete anos de descaso. [...] Fui à farmácia comprei um par de óculos, me encostei no balcão, abri o livro, mas logo senti que a leitura não teria graça, eu gostaria de lê-lo com os olhos dela." [Pp. 103]





"... o meu chapéu tem três bicos, tem três bicos o meu chapéu, se não tivesse três bicos, não seria o meu chapéu." [Pp. 105]





"Talvez me tivesse mesmo acontecido, como a tantos artistas desgraçados, de se truncar a veia criadora na plenitude da vida. Mas a mim isso não angustiava, não seria motivo para eu me entregar à bebida, a religiões. Tampouco necessitaria viver recluso, ou sob disfarces, porque sendo um anônimo, e não um artista despojado da glória, estaria a salvo do escárnio público. Não afundaria em reminiscências, muito menos iria virar um trapaceiro, um escritor maroto, flasificador de minha própria escrita. [...] E a partir de zero hora ela se espantaria de rever em mim aquele jovem arrebatado, sempre com o coração na boca, pronto a externar seus melhores sentimentos. [...] Mas à medida que aprimorava minha literatura, naturalmente comecei a me relaxar no trato com a Vanda. [...] Diante dela nem tinha mais vontade de me manifestar, e quando o fazia, era para falar bobagens, lugares-comuns, frases desenxabidas, com erros de sintaxe, cacófatos." [Pp. 106]





"Olhei ao redor as pessoas todas de trajes claros, mais cintilantes que claros, e achei que meu terno cinzento naquela festa seria quase espalhafatoso. [...] ...e algumas pessoas se sacudiam sem sair do lugar. Finalmente vi sua mão soltar a minha, como a de um afogado, vi a Vanda a voar quase, arremeter para o maior luzeiro do salão." [Pp. 108]





"Ela alçou a mão, fazendo o bracelete deslizar do pulso ao cotovelo, e mesmo àquela distância divisei o movimento lento de seus lábios: absolutamente admirável. Para contornar a piscina atravessei grupos de bêbados, de cheiradores de éter, de políticos, de americanos, de gays. [...] E eu já decifrava mais ou menos as palavras em sua boca: eram longas noites de outono, diante de uma folha em branco, ou: eram folhas e folhas rasgadas, ao longo das noites em branco, ou: eram como folhas de outono caindo, meus longos cabelos brancos, e a Vanda: absolutamente admirável." [Pp. 110]





"Ela diexou no ar a minha mão, ficou com nojo da minha mão pingando sangue, e isso não podia ser, eu nunca tive nojo dos sangues dela." [Pp. 111]





"...pretendia apenas estar a sós com ela. Nem gritar com ela eu queria, só esperava o final da algazarra para lhe dizer umas palavras. Segurei seus cabelos com as duas mãos, coloquei meu nariz no seu, senti seu hálito de champagne, ou era o meu, senti nossos corações batendo, e assim permanecemos. Até que a orquestra em peso produziu um acorde seco, e antes que rebentassem aplausos, morteiros e gritaria, houve um átimo de silêncio. Naquele instante oco, com uma voz que não era minha, lhe comuniquei: o autor do livro sou eu." [Pp. 112]





"... lírios são todos iguais, e ela não haveria de estar ali julgando lírios, mas sim pedidos. Então fechei os olhos e cheguei a das dois, três passos, até atinar que não tinha nenhum pedido a fazer. [...] Só se lhe pedisse para eu não ter dito o que tinha dito à Vanda. Só se lhe pedisse para rasurar aquelas palavras, trocá-las por outras quaisquer, cortá-las da minh história, mas a um pedido desses nem a rainha do mar pode atender. [...] Já estava no meio da sala quando ouvi: eu vou esquentar a sua sopa" [Pp. 113]





"Inventava cidades hsitóricas, vulcões, dava nome a grandes rios e seus afluentes, e com sorte pegava no sono." [Pp. 115]





"Penosas eram as pausas na gravação, as reticências dos poetas, a voz debilitada dos oradores mais velhos. [...] Kriska até hoje pensa que nham nham nhom nhom é a língua falada na América do Sul" [Pp. 116]





"E nas noites de sábado o auditório do Clube das Belas-Letras era aberto ao público para exibições dos literatos, embora literatura, cá pra mim, seja das artes a única que não precisa se exibir." [Pp. 117]





"Durante algum tempo minha cabeça seria assim como uma casa em obras, com palavras novas subindo por um ouvido e o entulho descendo por outro. Sem dúvida me daria pena ver se desperdiçarem tantas palavras belas, azulejos, por culpa de umas poucas peças que eu usara de forma desastrada." [Pp. 120-121]





"Caí de joelhos e dei com a testa nas grades de ferro do portão, mas o choque não me doeu, somente seu som repercutiu dentro da minha cabeça. Depois tive a sensação do sangue morno me descendo pela cara, e pensei que naquela posição daria para dormir um pouco. Assim estava qundo ouvi às minhas costas um motor de carro, portas batendo, umas risadas, passos, ouvi a voz de um homem: e isso agora o que é?, e uma voz de mulher: é o indivíduo de quem te falei, e o homem: a infeliz criatura está á beira da morte, e ela: está à beira da morte o indivíduo em meu portão." [Pp. 122]





"E assim segregado, eu tinha como passatempo roer as unhas, coçar a testa, ticar puxando os sete pontos na testa, fitar a luz no teto até lacrimejar e cantar músicas de Carnaval, na tentativa de abafar as recordações indesejáveis" [Pp. 123]





"... e ao ver em minhas mãos uma brochurinha úmida, desengonçada, solta da capa, se reclinou no assento, de pernas abertas. Retesou-se, porém, assim que anunciei os Tercetos Secretos, poema de minha autoria outorgado ao emérito Kocsis Ferenc, com prefácio do venerando professor Buzanszky Zoltán. Eu tentava ler, mas não li o prefácio, um autêntico Buzanszky, cujo estilo tão superior ao seu poderia humilhar o Sr..... Preferi humilhá-lo com a poesia, arte que ele ignorava, e que faria sofrer muito mais por não saber onde lhe doía. Eu declamava os versos lentamente, havia palavras que quase soletrava, pelo prazer de vê-lo se remexer na cadeira. Eu fazia longas pausas, silêncios que só um poeta permite, e ele baixava o rosto, olhava para os lados, para seus montes de livros, chegou a juntar os livros no colo, fez menção de se retirar. Mas eu estava a cavaleiro, com os meus tercetos na ponta da língua, eu estava declamando a Apoteose dos Poetas e sabia que ele quedaria sentado até o fim. Pouco me ocupei dos demais espectadores, uns a enxugar os olhos, uns a achar graça em tudo, outros voltados para os intérpretes, que pareciam se descabelar no fundo da sala; ante a inviável tarefa de traduzir um poeta húngaro, imagino que cada qual falasse o que lhe vinha à cabeça. Era para o Sr..... que eu me exibia, e para ele fiz uma mesura ao encerrar o poema, de baixo de bravos e vaias. Lépido atravessei a sala, encontrei o elevador enguiçado, subi as escadas num ímpeto, que foi arrefecendo a partir do terceiro lance." [Pp. 144-145]





"Pensei em voltar para casa, porém já não tinha forças, já não tinha as chaves, minha cabeça rodava, o poema rodava na minha cabeça e eu não queria mais saber de poema algum." [Pp. 146]





"Eu bicava palavras aqui e ali de línguas que eu conhecera, um pouco assim como um recém-solteiro a revisitar antigas namoradas. [...] Mas ao encontrar na nossa rua, de longe avistei a vila de casas gêmeas, e entre dezenas de telhados idênticos, distingui a meia-água que me abrigara por tantos anos. [...] ... e caí em mim; aprender o idioma húngaro fora brinquedo, difícil seria apagá-lo da mente. [...] Relaxei o corpo, me estendi, deitei o rosto em meu regaço, e subito me acometeu um espasmo, uma sensação de estrangulamento, uns arquejos violentos, eu soluçava como grunhe um proco, e demorei a compreender o que estava me sucedendo. Meus olhos se inundaram, minhas faces, meus rosto inteiro, a camisola de Kriska, suguei a camisola de Kriska para comprovar o sabor das lágirmas." [Pp. 147-148]





"... e mesmo no escuro eu via a expressão de seu rosto, gostava de vê-la assim transtornada, os olhos girando sem parar, como se não soubesse onde eu estava [...] Ao meio-dia me levantei, tomei um banho, me vesti, Kriska dormia nua, e na penumbra tinha o mesmo corpo de quando a conheci. Recolhi minhas roupas caídas no carpete, soquei-as de volta na mala de mão, fechei a mala. E tornei a abri-la, fechei e abri seu zíper várias vezes, porque despertar Kriska com um ruído metálico me pareceu mais honesto que a chamar docemente pelo nome. Kriska acendeu o abajur, pulou da cama, olhou a mala, me olhou, olhou a mala, me olhou, e eu lhe disse adeus." [Pp. 150]





"Permaneci imóvel, deixando-a pensar o que quisesse, e esperei que me cuspisse na boca e me arranhasse a cara, depois me enfiasse aquelas unhas nos olhos e os arrancasse das órbitas, eu tudo surpotaria. Kriska porém não ergueu as mãos, preferiu não me tocar. Respirou fundo, abriu a boca para falar alguma coisa, e senti que, com uma palavra apenas, me causaria dano maior. Com uma só palavra Kriska me cobriria de vergonha, me aleijaria, me faria andar torto de arrependimento pelo resto da vida. A palavra ali nos seus lábios vacilantes, devia ser um palavra que nunca se atravera a pronunciar. Devia ser uma palavra arcaica, derivada da voz de alguma ave noturna, uma palavra caída em desuso de tão atroz. Devia ser a única palavra que eu não conhecia, em todo vocabulário magiar, devia ser uma palavra estupenda. Então me contive e supilquei: fala! Kriska não falou. Expirou todo o ar que tinha, balançou a cabeça, voltou para a cama e se cobriu, se virou para o lado e apagou a luz." [Pp. 151]





"Os caminhantes em sentido contrário mal surgiam, já tinham passado, e com eles palavras soltas, pedaços de palavras." [Pp. 153]





"Acho que eu tinha conservado da cidade uma lembrança fotográfica, e agora tudo o que se movia em cima dela me dava a impressão de um artifício. [Pp. 154]





"Era como ler uma vida paralela à minha, e ao falar na primeira pessoa, por um personagem paralelo a mim, eu gaguejava." [ Pp. 173]











Nor-ma-li-da-de

! Nor-ma-li-da-de
tu-do
!nor-mal
ri-gi-do, ní-ti-do,
cla-ro, ra-so.
Ó-pi-o do ob-vil,
Jar-dim da cal-ma-ri-a
Ba-bi-lô-ni-a
!nor-mal
é a
!Nor-ma-li-da-de
!nor-mal
Fi-xa, ín-ti-ma,
Pú-bli-ca, ú-ni-ca
!nor-mal
!Nor-ma-li-da-de
ba-nal!

Como diz o ditado
à noite todos os gatos são pardos
creio que no centro da cidade
ele se aplique
à noite, de dia.

Todo mundo é desconfiado.

Hoje todos usam sapatos
O que dificulta mais as coisas.

E essa chuvinha enjoada de ar condicionado
Não refresca, só deixa mais abafado.

E no seu mau humor
Aí que o alheio fica sem face
E todos só tem um caráter.
Os postes se acendem,
O néon dos lugares históricos dá um glamour amais na decadência
Nesse momento o cuidado deve ser redobrado
O fluxo de bem vestidos é menor
Os bons essas horas não estão mais nas ruas
Uns e outros talvez passem de carro. Rádio e som são fundamentais,
Aqui nada é supérfluo.
Mas se você por infortúnio do destino
For um dos bons gatos do centro da cidade
Procure andar em bando,
Mas não se comunique; vocês são iguais, mas não deixam de ser pardos.
Vai que algum do outro lado está disfarçado?!
É tudo apenas por proteção
Pardos calçados.
Lembre-se, sempre perto deles.
Quanto aos outros passe por cima.
É menos um a te pedir comida
E dormir onde deseja sentar
Para não morrer.
ANTÍDOTOS: VENENOS:
Reflexão sonhos
Exercícios apatia
Dietas ninfomania
Badalação amor
Vida utopia
Rede trabalho
Coração racionalidade

Ela estava lá. Em pé em frente àquelas escadas sem fim. O vestido era branco, não tão branco quanto ela, que esguia e lânguida se confundia com a paisagem do recinto. Dos apartamentos, que tinham suas porta em mogno e os números em dourado, saíam melodias de músicas francesas, aquele piano e violinos bem característicos. O corrimão negro decididamente não harmonizava com o cenário, a não ser com os cabelos daquela mulher que ainda se encontrava no pé da escada.
Não se sabe ao certo o que passava dentro a cabeça dela. Mas o que se encontrava lá foi o bastante para se mover. Os braços foram às costas e desabotoou os 52 botões – um a um, vagarosamente como se cada um fosse um passaro a ser libertado. Acabado isso cruzou os mesmos braços a frente do corpo e a mão direita puxou o ombro esquerdo do vestido. A mão esquerda imitou, retirando do corpo o lado direito do vestido. Por último segurou-o na altura da cintura e levantou uma das pernas para arrancá-lo de vez do corpo. Uma perna de cada vez.
Com o vestido nas mãos colocou-o no chão com a parte rendada voltada para o solo. Apenas de sapato começou a subir. Degrau por degrau. A música continuava, pelo que percebi tocava la vie en rose. Seus pensamentos não passariam a fazer sentido no decorrer do caminho. Apenas seguia um impulso quase que animal.
Lances e lances de escada, a mesma música em todos os apartamentos, parecia que ia encontrar a mesma coisa em qualquer um deles. No entanto subia como se o inestimável a esperasse.
Parou. Olhou para os lados. Não subiu escadas, andou em direção a uma das portas mogno, essa com o número 1502 em dourado. Abriu a porta, não estava trancada, mas também não estava encostada. Entrou e como todo o resto a música tocava e estava vazio. Sem móveis, sem pessoas, apenas a vitrola no chão e as janelas escancaradas por onde entrava o vento.
No quarto como em todo o resto não tinha na, exceto um vestido cor de carmim e uma fita de cabelo da mesma cor. Ela amarrou os cabelos negros, atando a traça que fizera ao vê-la. Vestiu-se e foi a janela. Agora havia cor. O carmim o branco o negro e o azul. Agora existia vida.