Ela estava lá. Em pé em frente àquelas escadas sem fim. O vestido era branco, não tão branco quanto ela, que esguia e lânguida se confundia com a paisagem do recinto. Dos apartamentos, que tinham suas porta em mogno e os números em dourado, saíam melodias de músicas francesas, aquele piano e violinos bem característicos. O corrimão negro decididamente não harmonizava com o cenário, a não ser com os cabelos daquela mulher que ainda se encontrava no pé da escada.
Não se sabe ao certo o que passava dentro a cabeça dela. Mas o que se encontrava lá foi o bastante para se mover. Os braços foram às costas e desabotoou os 52 botões – um a um, vagarosamente como se cada um fosse um passaro a ser libertado. Acabado isso cruzou os mesmos braços a frente do corpo e a mão direita puxou o ombro esquerdo do vestido. A mão esquerda imitou, retirando do corpo o lado direito do vestido. Por último segurou-o na altura da cintura e levantou uma das pernas para arrancá-lo de vez do corpo. Uma perna de cada vez.
Com o vestido nas mãos colocou-o no chão com a parte rendada voltada para o solo. Apenas de sapato começou a subir. Degrau por degrau. A música continuava, pelo que percebi tocava la vie en rose. Seus pensamentos não passariam a fazer sentido no decorrer do caminho. Apenas seguia um impulso quase que animal.
Lances e lances de escada, a mesma música em todos os apartamentos, parecia que ia encontrar a mesma coisa em qualquer um deles. No entanto subia como se o inestimável a esperasse.
Parou. Olhou para os lados. Não subiu escadas, andou em direção a uma das portas mogno, essa com o número 1502 em dourado. Abriu a porta, não estava trancada, mas também não estava encostada. Entrou e como todo o resto a música tocava e estava vazio. Sem móveis, sem pessoas, apenas a vitrola no chão e as janelas escancaradas por onde entrava o vento.
No quarto como em todo o resto não tinha na, exceto um vestido cor de carmim e uma fita de cabelo da mesma cor. Ela amarrou os cabelos negros, atando a traça que fizera ao vê-la. Vestiu-se e foi a janela. Agora havia cor. O carmim o branco o negro e o azul. Agora existia vida.
sábado, 3 de maio de 2008
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